Amit Goswami é um físico nuclear indiano, considerado um importante cientista da atualidade, ele tem instigado os meios acadêmicos com sua busca de uma ponte entre a ciência e a espiritualidade. Ele vive nos EUA, é PhD em física quântica e professor titular da Universidade de Física de Oregon. Há mais de 15 anos está envolvido em estudos que buscam construir o ponto de união entre a física quântica e a espiritualidade. Já foi rotulado de místico pela comunidade científica, e acalmou os críticos através de várias publicações técnicas a respeito de suas ideias. Em seu livro "O Universo Auto-Consciente" ele procura demonstrar que o universo é matematicamente inconsistente, e sem existência de um conjunto superior, no caso Deus. E diz que se esses estudos se desenvolverem, logo no início do terceiro milênio, Deus será objeto da ciência e não mais da religião.
Vida Após a Morte - Por Amit Goswami
No fim do século 19, os teosofistas, sob a liderança de Madame Helena
Blavatsky, redescobriram para o Ocidente algumas antigas verdades orientais. A
verdade da ontologia perene – de que a consciência é a base de todo o ser – era
clara para eles. Eles reconheciam também dois princípios cosmológicos. Um é o
princípio da repetição para o cosmo inteiro – a ideia de que o universo se
expande a partir de um big-bang, depois se retrai num big-crunch e em seguida
se expande outra vez, esticando e encolhendo de modo cíclico. O segundo
princípio era a ideia de reencarnação – a ideia de que existe uma outra vida
antes desta e haverá outra depois da morte; nós já estivemos aqui antes e vamos
renascer muitas outras vezes.
Para a mentalidade moderna, a reencarnação parece um tanto absurda. Sob
implacável pressão da ciência materialista, nós nos identificamos quase
totalmente com o corpo físico, de modo que a ideia de que uma parte de nós
sobrevive à morte do corpo físico é difícil de engolir. Ainda mais difícil é
imaginar um renascimento dessa parte num novo corpo físico. A imagem de uma
alma deixando o corpo que morre e entrando num feto prestes a nascer parece
particularmente incômoda, porque pressupõe uma alma existindo independentemente
do corpo. E nós tentamos com tanto afinco erradicar o dualismo de nossa visão
de mundo!
Mas o nosso monismo (1) não precisa ser um monismo fundamentado na
matéria. Se, em vez da matéria, a consciência for a base de todo o ser, a
primeira dificuldade – aceitar que uma parte de nós sobrevive à morte – é
consideravelmente mitigada, pois pelo menos a consciência sobrevive à morte do
corpo físico.
Além disso, quando aprendemos que a nova ciência precisa incluir os
corpos vital e mental e o intelecto para captar o sentido do que acontece no
nível material da realidade, e que o corpo físico é uma espécie de computador
(quântico) no qual as funções vitais e mentais estão programadas num software
fácil de usar, até mesmo a aceitação da ideia de algo como uma alma se torna
fácil. Não, isso não requer dualismo. Nenhum de nossos corpos – o físico, o
vital, o mental ou o intelecto – é uma substância sólida, ao estilo newtoniano
clássico; eles são, em vez disso, possibilidades quânticas na consciência. A
consciência simultaneamente provoca colapsos de possibilidades paralelas desses
mundos para compor sua própria experiência de cada momento.
Dos quatro corpos, apenas o corpo físico é localizado, estrutural e também
materialmente; é por essa razão que é chamado de corpo grosseiro. Nossos corpos
vital e mental são inteiramente funcionais, criados por condicionamento. Nós
desenvolvemos propensões a determinadas confluências de funções vitais e
mentais no processo de formação das representações no físico. Esses padrões de
hábito se constituem de memória quântica – o condicionamento das probabilidades
quânticas associadas às funções matemáticas de onda quântica desses corpos. É
uma boa descrição científica de uma parte de nós que sobreviveria à morte: o
corpo sutil – o conglomerado dos corpos vital, mental e temático –, no qual a
memória das propensões passadas (que os hindus denominam carma) é transportada
pela matemática quântica modificada dos corpos vital e mental. Podemos chamar
esse conglomerado de mônada quântica. (Além dos corpos grosseiro e sutil,
existe um terceiro, o corpo causal, constituído do corpo de beatitude do modelo
panchakosha, o qual, é claro, sobrevive à morte, porque é a base do ser. Para
onde mais ele iria?)
Com isso, a reencarnação é elevada à categoria de fenômeno merecedor de
investigação científica, pois a melhor prova científica da existência do corpo
sutil, com seus componentes vital e mental, seria um indício de sua
sobrevivência e reencarnação. (2)
A mônada quântica sobrevivente, de acordo com o nosso modelo, conserva a
memória quântica dos padrões de hábito e das propensões das vidas passadas. E
existem amplos dados em apoio à ideia de que as propensões sem dúvida
sobrevivem e reencarnam. No entanto, todas as narrativas que acumulamos durante
a nossa existência, toda a nossa história pessoal, morrem, de modo geral, com o
corpo físico, com o cérebro; essas histórias não são transportadas pelas
mônadas quânticas. Mesmo assim, existem dados que mostram que algumas pessoas,
especialmente crianças, são capazes de lembrar-se de histórias de vidas
passadas, frequentemente com um nível de detalhe surpreendente. Qual é a
explicação para essa memória reencarnacional? A não localidade quântica através
do tempo e do espaço esclareceria isso.
Acredito que todas as reencarnações de uma dada mônada quântica são
conectadas não localmente através do tempo e do espaço, correlacionadas em
virtude de uma intenção consciente. Pouco antes do momento da morte, quando
entramos num estado que os budistas tibetanos denominam bardo (transição),
nossa identidade-ego cede consideravelmente; e, quando mergulhamos no eu
quântico, tomamos conhecimento de uma janela não local de recordações –
passadas, presentes e futuras. Quando agonizamos, somos capazes de travar uma
relação não local com a nossa próxima encarnação, ainda sendo gestada, de modo
que todas as histórias que recordamos se tornam parte das histórias dessa
encarnação, agregando-se a suas recordações de infância. Essas recordações
podem ser evocadas, mais tarde, sob hipnose. E, em alguns casos, as crianças
conseguem evocar espontaneamente essas histórias de suas vidas passadas.
Como a mônada quântica sabe onde deve renascer? Se as diferentes
encarnações físicas são correlacionadas pela não localidade quântica e pela
intenção consciente, seria a nossa intenção (no momento da morte, por exemplo)
que transporta a nossa mônada quântica de um corpo encarnado para outro.
Indícios de sobrevivência e reencarnação
Existem três tipos de indícios em favor da teoria da sobrevivência e
reencarnação do corpo sutil:
• Experiências relativas ao estado alterado de consciência no momento da
morte;
• Dados sobre reencarnação;
• Dados sobre seres desencarnados.
Uma espécie de indício vem do limiar da morte, a experiência de morte.
As experiências de visões comunicadas psiquicamente a parentes e amigos por
pessoas à beira da morte vêm sendo registradas desde 1889, quando Henry
Sidgwick e seus colaboradores iniciaram cinco anos de compilação de um Censo
das Alucinações, sob os auspícios da British Society for Psychical Research.
Sidgwick descobriu que um número significativo das alucinações relatadas
envolvia pessoas que estavam morrendo a uma distância considerável do indivíduo
que alucinava, e ocorria num prazo de 12 horas da morte.
Mais conhecidas, evidentemente, são as experiências de quase morte
(EQMs), nas uais o indivíduo sobrevive e se recorda de sua experiência. Nas
EQMs, nós encontramos uma confirmação de algumas das crenças religiosas de
diversas culturas; quem teve a experiência frequentemente descreve uma passagem
por um túnel que leva a um outro mundo, guiada, muitas vezes, por uma conhecida
figura espiritual da tradição da pessoa ou por um parente morto.
Tanto nas visões no leito de morte quanto nas experiências de quase
morte, o indivíduo parece transcender a situação de morrer, que, afinal, é
frequentemente dolorosa e desconcertante. O indivíduo parece experimentar um
domínio de consciência “feliz”, diferente do domínio físico da experiência
comum.
A felicidade ou a paz comunicadas telepaticamente nas visões no leito de
morte sugerem que a experiência da morte é um profundo encontro com a
consciência não local e com seus diversos arquétipos. Na comunicação telepática
de uma experiência alucinatória, a identificação com o corpo que está padecendo
e morrendo ainda é claramente muito forte. Mas a subsequente libertação dessa
identificação permite uma comunicação integral da felicidade da consciência do
eu quântico, que está além da identidade-ego.
Que as experiências de quase morte são encontros com a consciência não
local e seus arquétipos é algo confirmado por dados diretos. Uma nova dimensão
da pesquisa sobre a EQM demonstra que uma EQM pode levar a uma profunda
transformação no modo de vida do sobrevivente da experiência. Muitos deles, por
exemplo, deixam de sentir o medo da morte que assombra a maior parte da
humanidade.
Qual é a explicação para a imagética específica descrita pelos que
passaram pela EQM? As imagens vistas – personagens espirituais, parentes
próximos como os pais ou os irmãos – são claramente arquetípicas. Podemos
aprender alguma coisa comparando as experiências dos indivíduos com sonhos, uma
vez que o estado que eles experimentam é semelhante ao estado onírico: sua
identificação com o corpo se reduz e o ego deixa de ficar monitorando e
controlando.
Dados sobre reencarnação
Os indícios em favor da memória reencarnacional são obtidos
principalmente a partir dos relatos de crianças que se lembram de suas vidas
passadas com detalhes passíveis de comprovação. O psiquiatra Ian Stevenson
acumulou uma base de dados de cerca de duas mil recordações reencarnacionais
comprovadas. Em alguns casos, ele chegou a levar as crianças aos lugares das
vidas passadas de que se lembravam para comprovar suas histórias. Mesmo sem
jamais terem estado nesses lugares, as crianças os reconheciam e conseguiam
identificar as casas em que tinham vivido. Às vezes reconheciam até mesmo
membros de suas famílias anteriores. Em um caso, a criança lembrou-se de onde
havia algum dinheiro escondido, e, de fato, encontrou-se dinheiro ali. Os
detalhes sobre esses dados podem ser encontrados nos livros e artigos de
Stevenson. Um dos modos de se comprovar nosso modelo atual – de que a
memorização reencarnacional ocorre numa idade muito precoce, por meio de uma
comunicação não local com o eu à beira da morte da vida anterior – seria
verificar se os adultos são capazes de se lembrar de experiências de vidas
passadas, quando submetidos à regressão à infância.
Dados sobre entidades desencarnadas
Até aqui, falamos sobre dados que envolvem experiências de pessoas na
realidade manifesta. Mas existem outros dados, muito controversos, a respeito
da sobrevivência depois da morte nos quais uma pessoa viva (normalmente um
médium ou canalizador em estado de transe) alega se comunicar com uma pessoa, e
falar por ela, que já morreu há algum tempo e aparentemente habita um domínio
além do tempo e do espaço. Isso sugere não apenas a sobrevivência da
consciência depois da morte como também a existência de uma mônada quântica sem
corpo físico.
Como um médium se comunica com uma mônada quântica desencarnada? A
consciência não é capaz de provocar o colapso de ondas de possibilidade numa
mônada quântica isolada, mas, se a mônada quântica desencarnada entrar em
correlação com um ser material vivo (o médium), o colapso pode ocorrer. Os
canalizadores são as pessoas que possuem um talento especial e disposição para
atuar nessa qualidade.
O fenômeno da escrita automática também pode ser explicado em termos de
canalização. As ideias criativas e as verdades espirituais estão disponíveis
para todos, mas o acesso a elas requer uma mente preparada. Como o profeta
Maomé foi capaz de escrever o Corão, mesmo sendo praticamente analfabeto? O
arcanjo Gabriel – uma mônada quântica – emprestou a Maomé, por assim dizer, uma
mente. A experiência também transformou Maomé.
Anjos e devas
Em todas as culturas existem concepções de seres correspondentes ao que,
no cristianismo, se denomina anjos. Os devas são os anjos do hinduísmo. Em
geral, os anjos, ou devas, pertencem ao reino transcendente e arquetípico do
corpo temático, o que Platão chamava de reino das ideias, e são desprovidos de
forma. São os contextos aos quais nós damos forma em nossos atos criativos.
Mas, na literatura, e mesmo nos tempos modernos, também existem anjos
percebidos pelas pessoas como auxiliadores (como Gabriel, que auxiliou Maomé).
Na linguagem de nosso modelo, esse tipo de anjo poderia ser uma mônada quântica
desencarnada cuja participação no ciclo de nascimento e renascimento já
terminou.
Notas:
(1) De acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, o monismo é
uma “concepção que remonta ao elitismo grego, segundo a qual a realidade é
constituída por um princípio único, um fundamento elementar, sendo os múltiplos
seres redutíveis em última instância a essa unidade”. (N. da R.)
(2) Saliente-se que F. A. Wolf (1996) elaborou um modelo de
sobrevivência depois da morte dentro do próprio paradigma materialista. Em sua
teoria, no entanto, há várias hipóteses que talvez não sejam viáveis; seu
modelo de sobrevivência, por exemplo, é válido somente se o universo vier a
terminar num big-crunch.